quarta-feira, 12 de abril de 2017

UMA HORA DE BATE-PAPO ENTRE TITÃS

Entre Eduardo Vetillo
http://vetillobrothers.blogspot.com/
Wilde Portela
http://blogdochet.blogspot.com/
e Bira Dantas
http://chargesbira.blogspot.com
Caro leitor, você imagina o que acontece quando duas lendas vivas da HQ brasileira se encontram na internet? Vetillo e Wilde, parceiros de Chet, um dos ícones dos Quadrinhos de Farwest no Brasil, não se falavam há 20 anos. Este digitador que lhes fala presenciou uma verdadeira epopéia com dois Gigantes. De um lado (em Olinda), um mestre das letras e da narrativa quadrinhística. De outro (em Campinas/SP) , um mestre do traço no bico-de-pena, das pinceladas aquareladas, dos desenhos enquadrados. No meio, um reles mortal com mania de vislumbrar sonhos. Um Ulisses, tentando achar o caminho de casa, perdido no oceano, maravilhado com Gigantes Olímpicos, monstros e sereias. Como cantou Gil, o genial ex-ministro da Cultura (um dos melhores que já tivemos) "fazendo uma jangada de gigabytes, pra navegar nas ondas deste infomar, aproveitando a vazante da infomaré".
εξασφαλιστεί ότι οι θεοί για εμάς.
(Que os Deuses velem por nós)
Bira: Oi, Wilde, estamos aqui.
Edu: O Wilde foi o melhor roteirista com quem trabalhei!
Wilde: Caramba!
Bira e Edu: Caramba dizemos nós!
Wilde: Mas com o Vetillo nos desenhos, era fogo. Adorava ver aqueles traços nervosos e com um movimento incrível. O Vetillo tinha um estilo bem pessoal.
Bira: Vixi, to vendo que essa conversa a três vai parar no site Bigorna.
Edu: E o relançamento do Chet, como foi isso, quem fez?
Wilde: Foi uma editora do Paraná.
Edu: Puxa, quantos anos de janela, que bom que os Quadrinhos estão voltando.
Wilde: Rapaz, que prazer enorme. Dia desses minha irmã, que foi casada com Ota, falou de você e comentamos seus desenhos...
Bira: Eita, diabo, danou-se!
Edu: A Su?
Wilde: Não, a Fátima. Mas falando do Chet, era aquele lance, quando eu pegava a revista que vinha com o traço do Vetillo, eu lia tudo com calma, degustando cada quadro e aí, eis que vejo o cara do lado do amigo Bira.
Edu: Eu achava muito bacanas roteiros com três acontecimentos simultâneos, que acabavam com um desfecho único.
Wilde: Pois é, dica de noveleiro. Uma trama e três paralelas. Sabe, gosto de escrever assim... Às vezes fico numa situação complicada, pois não gosto de escrever sinopse. E, gozado que o Vetillo seguia, direitinho, as tomadas de cena que eu descrevia. Era arretado!
Bira: É, estou aqui de bagrinho em aquário de tubarão. Só fera!
Wilde: Você também é fera, Bira! Jovem fera, desenha minha cara pra eu botar no Facebook e no Orkut!
Bira: Demorou. Faço amanhã!
Wilde: Eba!
Edu: Wilde, ainda quero desenhar mais HQs com roteiros teus.
Bira: Opa, senti de novo a parceria no ar!
Wilde: Amarra o endereço do Vetillo, pois to levando a sério a nova-velha parceria Wilde-Vetillo. Pra mim será uma das grandes honras. Além de bater aquele sentimento, né? Será uma história épica, clássica.
Edu: Bem no estilo Wilde.
Wilde: E também o Ota adora o Vetillo.
Bira: Falando em épico, o Vetillo acabou de entregar a Ilíada em quadrinhos pra editora Cortez. Tudo a ver com o momento de vocês! E quanto ao meu velho amigo Watson Portela?
Wilde: Tá na Bat-caverna. Nas Paralelas. Virou entidade, lenda!
Bira: Como assim, não sai mais de casa? Onde ele está morando? Ele está publicando HQ?
Wilde: Na casa de meus pais, no Recife, escondidão mesmo. Desenhou várias HQs. Estão lacradas na gaveta.
Bira: Puxa vida, gosto tanto dele, conheci Watson no Encontro de Quadrinhos em Araxá. Ele via minhas charges e queria por tudo que eu desenhasse Ficção. Eu dizia que nunca ia desenhar espaçonaves e roupas alienígenas como ele, com aquele detalhamento, luz e sombras, hachuras maravilhosas. Wilde: Vetillo, você tem os Chets que desenhou?
Edu: Só o #1 com capa do Ofeliano.
Wilde: Eu tenho três, o #1, um especial e um que você desenhou uma história de caravana quando a turma comia até rato pra sobreviver.
Edu: Raridades! Toma conta direitinho e me manda cópias de tudo.
Bira: Rato ou preá? Hauhauhuahuahuauhauh!
Wilde: Ratazana do deserto mesmo, gabiruzão. A história chamou atenção. Parecia um filme por causa dos desenhos do Vetillo e do tema.
Bira: Wilde, minha família é do nordeste, do RN. O casamento do meu irmão mais velho, Libanio com Gilma Cyrne (parente do Moacyr), foi no sertão de São José do Seridó. Na festa eu comi um pedaço de preá torrado que só fazia crescer na minha boca. Preá, nunca mais!
Wilde: KKKKKKKKKK. Preá não como nem a pau, nem tatu-peba.
Bira: Nem Tatu-man, o meu personagem?
Wilde: Respeito o Tatu-man!
Todos: Hauhauhauauuauauhauha!
Wilde: Um dia comi gia (um tipo de rã) enganado e quando soube... UAHHHHHHH!
Thaís: Que nojento!
Wilde: Rsrsrsrsrs. Beleza, ela tem razão!
Edu: E o Ota ainda está com sua irmã mais velha?
Wilde: Tá mais não. E é irmã mais nova, pô! Botei a bichinha no colo! Faço parte do The Bengalas Boys Club. Tony Fernandes também.
Edu: O Ota é feio que só uma desgraça, ela é doida!
Wilde: Rapaz, doidaça! E continua doidaça. E falei com ele recentemente, um papo doido de dar em doido! E como sou doido, bateu não... Mas dá pedal.
Bira: Cara, eu vou colocar tudo isso no Bigorna, tem alguma coisa que quer que eu tire?
Wilde: Não! Pode colocar tudo no Bigorna!
Edu: Você lembra da gravata do Ota, mais cumprida que a do Didi? Ia até os pés...
Wilde: Rsrsrsrsrs. Vero! A gravata tronxa! Lembro sim, Ota era desajeitado paca! Pegava um ônibus cheio e antes de subir, comprava um sanduba de carne-de-porco e ia comendo em pé, o maior cheiro e a maior meleca!
Bira: Com o futunzão rolando solto! Esse é o Ota...
Wilde: Isso. Ele se pendurava com uma mão e com a outra comia o enorme sanduba e ia se melcando todo.
Edu: Mas o Ota tinha uma moral fdp no Rio.
Wilde: Ota tem moral em tudo que é canto. Ele é ferrado como editor, uma cabeça pensante.
Bira: Até em bordel, Ota tem moral!
Wilde: Lá ele perdeu. Foi roubado por três travecos e não passou mais por lá.
Bira: Que nem o Roaldo gordo? Virge santa, a fome era tanta!
Wilde: Bom, por aí...
Edu: Peter Bogdonovich está fazendo um documentário sobre John Ford.
Wilde: Ford? Meu ídolo, cara! Acabei de receber "The searchers - Rastros de ódio", com o velho Duke, dirigido por Ford.
Edu: Uma obra-prima. Bendita seja a Irlanda.
Wilde: Bendita sim, se não fosse ela, já viu... Uma obra-prima mesmo. Já assisti cinco vezes e hoje vou assistir de novo. Atualmente estou tentando fazer uma HQ cm levada de filme.
Bira: Tem que ter Vetillo no meio.
Wilde: E vai, cara! Se ele topar, uma história sem legendas, saca? Só balões, falas. Quero fazer uma Graphic Novel, formato americano. Editora tem. Portanto, acho que a dupla Vetillo-Wilde dá pedal e vende (sem falsa modéstia)!
Edu: Sempre deu. Eu estou com muito trabalho no momento, mas com certeza, vamos voltar a trabalhar juntos. Qualquer idéia, me envie pelo correio.
Bira: O Vetillo e você, Wilde, estão na crista da onda. Massa total!
Wilde: Massa real. Papo bom é curto assim mesmo. Quando você falou que o Vetillo ia no teu estúdio, desisti de ir na casa do papa&mamma. Seria bom num boteco.
Edu: Que todos nossos projetos sejam "Ases"!
Bira: Abração Wilde. Prazer falar contigo. Mande um abraço especial pro Watson e pergunte se ele recebeu meu Birazine pelo correio.
Edu: Um abraço fordiano pra você!
Bira: Estamos que nem três pintos no lixo!
Wilde: Outro pra você. Abraços em você e no Vetillo. Valeu mesmo! Foi um prazer enorme que você me proporcionou, Bira, entrar em contato com o Vetillo novamente! Alegre que só! E tem um lance aqui de Frei Caneca em HQ, pra escola e pra crianças, você tá no meio, se te interessar.
Bira: Está topado. Depois de ter sido assistente de um Titã como o Vetillo, será uma honra ser parceiro de outro Titã como Wilde Portela, sinto-me no meio de um filme mitológico.
O Ota deu uma resposta, mas isso está no site Bigorna.
http://www.bigorna.net/index.php?secao=birazine&id=1286124127

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

terça-feira, 16 de junho de 2015

O GIBI QUE NÃO ACONTECEU

EM DEFESA DA SANTA IFIGENIA Ou “O Golpe de Kassab para criar um Mega Projeto Imobiliário no Centro de Sampa”. Este Gibi foi encomendado pelo ex-deputado Adriano Diogo, em 2011, mas parou nos estudos e pré-roteiro. Pra quem quiser saber mais sobre projeto imobiliário, clique aqui: https://pt.wikipedia.org/wiki/Projeto_Nova_Luz
Roteiro e desenhos meus.
Página 3:
Título: Santa Ifigenia vai abaixo?
Quadro 1- Narrador: Estou tomando um capuccino com minha mulher quando o celular toca. É o deputado Adriano Diogo. O assunto eu tinha visto superficialmente na TV.
Adriano: Bira, preciso que você faça um gibi-denúncia dessa barbaridade do Kassab.
Bira: Adriano, eu ouvi a notícia na TV, que não explicou quase nada. Falou de desapropriação da Santa Ifigênia, revitalização do Centro. Alguns comerciantes protestando... Ontem, a vereadora Juliana Cardoso me falou de um golpe do prefeito nos moradores e comerciantes, que estão se mobilizando contra a demolição desta área. Disse que já fizeram uma audiência pública, e que o prefeito quer atropelar todo mundo.
Quadro 2 - Adriano: Isso mesmo. O patrimônio histórico está sendo dilapidado. São 200 mil empregos diretos e indiretos que o Kassabão quer detonar. A Imprensa não esclarece nada. Falam que é por causa da Cracolândia. Uma cortina de fumaça para esconder o interesse financeiro no lance. Por isso queremos fazer Quadrinhos no estilo “Notas sobre Gaza” do Joe Sacco. Conhece?
Quadro 3 – Narrador: Sim, eu conhecia o trabalho deste notável quadrinhista norte-americano. Ele visitou áreas devastadas pela Guerra como Gaza, na Palestina e Gorazde, na Bósnia. Entrevistou as vítimas e publicou essas reportagens em forma de Quadrinhos. Ganhou o Prêmio Pulitzer de jornalismo.
Quadro 4 – Adriano: Então vem pra cá, Bira. Vou te colocar em contato com o pessoal que eu conheço: comerciantes honestos, moradores que batalham pela sobrevivência. O Kassab e o Bicudinho querem demolir 45 quarteirões. Vão pagar mixaria pelas indenizações e vender para grandes empresas, num mega evento imobiliário.
Página 4: Quadro 1 - Narrador: Dias depois, chego em São Paulo. O viaduto amarelo que foi construído na Inglaterra, desmontado e trazido de navio para cá, desponta imponente.
Quadro 2 - Narrador: As ruas que circundam o viaduto Santa Ifigênia são um cartão postal do Centrão. Entre o Bom Retiro e a Estação da Luz, centenas de pessoas carregam caixas e mais caixas em carrinhos de mão. Vendedores apregoam seus produtos. É o fervilhar do comércio. O contato entre os comerciantes e quem precisa de equipamentos. O som novo. A TV último tipo. A guitarra ou microfone. E tudo a preço mais em conta do que nos shoppings...
Quadro 3 -
Narrador: Chego na loja de eletrônicos do Nouri, libanês que mora há muitas décadas no Brasil. Lá estão Adriano (com o livro do Joe Sacco nas mãos),o comerciante Joseph –diretor como Nouri, da Câmara de Dirigentes Lojistas- e Edno, editor de jornal da região.
Quadro 4 - Adriano: É isso aqui que o Kassab quer fazer: transformar a Santa Ifigênia numa praça de Guerra. Demolir tudo. Este é o Bira, pessoal. Ele fez vários gibis pras minhas campanhas.
Nouri: Prazer, Bira. Antes de mais nada, a gente quer te levar pra conhecer as histórias desta rua através do povo que vive aqui. Tem gente que está aqui há mais de 70, 80 anos. Gente que veio de outros países, trabalhou com afinco e ajudou a construir a riqueza desta cidade maravilhosa que é São Paulo.
Edno: Podemos publicar estes Quadrinhos no meu jornal. O importante é esclarecer tudo. Mostrar a grande sacanagem que está por trás destes mega-empresários com as garras afiadas para atacar esta parte do Centro.
Joseph: As pessoas estão desinformadas quanto a este projeto do Kassab. Acreditam que ele quer melhorar a cidade. Que vai revitalizar o Centro e acabar com a Cracolândia. Na real, ele só quer mudar a desgraça de lugar. E tirar os comerciantes e moradores daqui. Ele quer acabar com a nossa vida, com a nossa história.
Adriano: Só preservando as histórias pessoais, a gente mantém a luta desta gente valorosa que está aqui: libaneses,turcos, poloneses, judeus, chineses deram seu sangue no dia-a-dia deste pedaço da cidade. E Kassab é um lobo com pele de cordeiro. Se diz democrático, mas coloca coronéis nas subprefeituras. Usa a Operação Delegada para contratar como “bico” os policiais militares pela prefeitura. Trata os Movimentos Populares como caso de polícia, no cassetete. Uma democracia muito parecida com a do seu parente lá no Egito, Hosni Mubarak. Kassab pôs a Cidade de São Paulo à venda com operações urbanas, a Santa Ifigênia, Luz, Lapa, só para beneficiar os setores imobiliários. Com a Operação Urbana Luz quer derrubar 45 quadras da região Central. Ofereceu ao consórcio Cia City fazer a desapropriação. Essa empresa vergonhosamente presidida pelo filho de Hélio Bicudo, representa os interesses imobiliários na cidade. 45 quadras! Joseph: Não é fácil não. Ainda bem que a gente tem amigos com quem contar. Pessoas que vão denunciar esse ataque da prefeitura. Bira, vamos te apresentar o Henrique Warcman, da Kitsom. A loja dele é de 1957. Veja que maravilha de prédio. Tombado pelo patrimônio público. E uma canetada deste prefeito pode derrubar.
Henrique: Começamos vendendo válvulas, reistências, condensadores e transformadores eletrônicos, há 54 anos, mas a loja já existia há 5 anos. Naquele tempo, o pessoal comprava o “kit” de componentes para montar rádios e amplificadores. Aí criamos o nome Kitsom. Assim, esta rua virou um marco em eletrônica, vinha até gente de outros países comprar aqui.
Hoje a gente vende aparelhos sofisticados, até "home theater", é um orgulho ser uma das lojas mais completas na área. Nossos funcionários atendem de maneira gentil e educada, dando orientação técnica a todo cliente. Esse é nosso lema.
Narrador: Puxa, quase 60 anos prestando um serviço excelente. Não é à toa que a rua prosperou...
Nouri: Agora, vamos conhecer o Abduch, 100 anos de comércio aqui na rua. O bisavô fundou a loja. Quem cuida agora é o neto... Narrador: Ele está de saída, mas mostra o quadro com a reportagem do avô e dá uma busca rápida na internet para ver meus trabalhos.
Abduch: Você desenhou gibi dos Trapalhões? Eu tenho alguns exemplares! Muito legal.
A história dessa loja é a história dessa rua. A vida da família. Um absurdo ver um prefeito tratar o povo que trabalha como nada, ou menos que isso. Narrador: Paramos para um café com esfiha. O garoto Gustavo espia meus traços, enquanto eu retratava Adriano, Edno, Joseph e Nouri. É a lanchonete escolhida pro cafezinho das tardes. O que vai ser disso? E do Gustavo? De lá, mais uma caminhada, para chegar à loja do João Bolsoni. Joseph: Essa loja começou com o pai, ainda na década de 50. Mas não irei com vocês, tenho um compromisso agora...
Narrador: Entramos na loja ao som da guitarra de Jimi Hendrix. Em seguida, Creedence. O João gosta mesmo de Rock. Como eu.
João: Essa loja foi montada pelo meu pai, Wilson. Começou vendendo discos de grandes nomes da MPB como Silvio Caldas e Orlando Silva, que apareciam aqui de vez em quando. Naquele tempo, as pessoas vinham de bonde. Nesta rua tinha muita loja de tecido, calçado e selaria. Bira: Selaria de cavalo?
João: Isso! A turma vinha de trem, se abastecia aqui e voltava pras suas cidades. Tinha gente que chegava de charrete. O início da eletrônica na rua foi em 1960. Eu cresci aqui. A história desse lugar é maravilhosa. Isso não pode ser derrubado com tratores e guindastes. Dizem que os imóveis tombados como Patrimônio Público serão preservados, mas ninguém garante.
Narrador: Nisso, chega Mendonça, representante da Falcon. Mendonça: Eu estou há 31 anos na rua. Andando aqui pra cima e pra baixo. Sou nordestino, mas conheço essa rua melhor do que qualquer outra. Acabar com ela seria um crime! Andamos mais um pouco e chegamos à avenida Duque de Caxias. O marechal, do alto de seu cavalo viu todo aquele bairro ser formado, a antiga rodoviária ser construída e fechada. Pessoas dormem no chão. Nouri mostra o Memorial da Resistência, construído na antiga sede do Deops.
Adriano: É uma instituição dedicada à preservação das memórias da resistência e da repressão políticas que ocorriam aqui no Deops/SP, durante a Ditadura Militar.
Nouri: E olhem ali na frente a Estação da Luz. Tem gente que vai pra Paris, Londres procurar beleza arquitetônica. E ela está aqui, vejam como essa cidade é bela. Eu sempre ando por aqui. Paramos para almoçar no Bar Leo, na rua Aurora. Minha primeira vez lá foi com Gualberto e Tucci, dois amigos dos Quadrinhos de Sampa. Gualberto montou com a Dani, a livraria HQ Mix, na Praça Roosevelt, ao lado do Espaço dos Satyros e dos Parlapatões.
Bira: Gente, este chopp do Leo é tão delicioso. E o canapé de carne crua, então? Que saudade.
Fernando, entre um chopp e outro, explica: Este bar foi fundado em 1940 pelo alemão Leopoldo. 20 anos depois o seu Hermes de Rosa comprou. Faleceu em 2003, mas a família continua tomando conta. E o seu Luiz que é garçom aqui há décadas, mas levou um tombo e não veio trabalhar hoje. Revitalizar é reformar prédio que está caindo, fiscalizar a segurança das instalações elétricas. Não expulsar todo mundo daqui deste jeito, que nem cachorro. Tem tanta coisa pra mexer e a prefeitura vem logo mexer com quem está quieto. Se acabarem com isto aqui, vão acabar com a história do bairro. Depois de almoçar, encontramos outro conhecido de Nouri, o Jack. Ele é filho de poloneses (?), mas nasceu na China, assim que sabe da ideia deste gibi fala pro Adriano:
Jack: Vou levá-los na agência de comunicação Fess Kobby, da qual sou sócio. Lá a Selene e o Tateishi vão contar tudo que a gente está sofrendo na mão do Kassab.
Na portaria, Adriano comenta: O Bandido da Luz Vermelha –clássico do Cinema Nacional- foi filmado aqui, num desses prédios vizinhos.
Jack: E o José Mojica, o Zé do Caixão vivia por aqui nos anos 70. Vinham muitos intelectuais e artistas produzir arte neste Centrão.
De cara, gostei da agência. No corredor de entrada, umas 20 telas retratam moradores da rua. Eu achei que fossem funcionários de lá. Fomos recebidos pela Selene, que é a administradora.
Selene: Quem vai falar com vocês é o Roberto Tateishi, diretor de arte da agência. Sabe, nós fomos cobaias neste Projeto Nova Luz do Kassab. A agência foi montada aqui com a promessa de isenção de 2 a 5% no ISS. Isso interessava, pois representava uma diferença no preço final do trabalho e, muitas vezes, decide uma concorrência. Eu participei de dezenas de reuniões, passei inúmeras noites e fins de semana juntando documentos que eles exigiam. Os sócios fizeram reformas e investimentos aqui com a promessa de um futuro. E o futuro que nos oferecem agora é a demolição.
Edu, diretor de criação, entra na sala rapidamente. Tem uma reunião, mas fala que estamos em boas mãos. Quando eu comento das telas da entrada, ele entrega o autor:
Edu: Foi o Roberto. Este cara é fantástico.
Roberto: Desde eu entrei aqui, a idéia era que a agência se comunicasse com o mundo lá fora. Estou aqui a 6 anos e meio e achei muito interessante a idéia de uma agência sair das grandes avenidas e bairros nobres. Mas a agência foi vítima da burocracia. Agora estamos sem saber do futuro...
Voltamos à loja de Nouri. Adriano se despede com a promessa de entrevistar mais gente dos 45 quarteirões condenados por Kassab, Bicudinho e os Empresários-vampiros do ramo imobiliário.
Nouri: Bira, aqui funciona a CDL, Câmara dos Dirigentes Lojistas. Este é o Manuel, é morador aqui do bairro e trabalha com a gente:
Manuel: A situação aqui é assim: droga tem em todo lugar, mas nem por isso tem que destruir tudo. A prefeitura e a polícia empurram com a barriga. Não adianta prender, droga é caso de saúde pública. Projeto de Revitalização é Trem-bala saindo da Estação da Luz pro Rio e Campinas.
Bira: O que seria revitalização pra você?
Manuel: Um projeto de reforma discutido caso a caso, com moradores e comerciantes, através de suas entidades representativas. Reforma de calçadas e fachadas. Isso sim.
Bira: Como o Kassab tratou vocês?
Manuel: Com um trator. Aplicando um projeto de cima pra baixo, que paga 10% do que o imóvel vale. E se o comerciante quiser voltar depois, vai ter que pagar 90% a mais do que recebeu. Isso é extorsão. Mas demos o troco com mobilização.A Câmara dos Lojistas e a ACSI, Associação Comunitária da Santa Ifigênia, foram pra rua. Na primeira audiência pública, colocamos 2.000 pessoas na Câmara. Na segunda audiência, fizemos uma grande passeata e colocamos 3.000 pessoas lá. Olha os comentários de quem participou:
http://comentarios.folha.com.br/comentarios?comment=145531&site=folhaonline&skin=folhaonline “EXMA Presidente Dilma e o companheiro LULA,nós comerciantes da SANTA IFIGÊNIA, pedimos SOCORRO a quem já sofreu todos os tipos de ditadura desse país. Pelo amor de DEUS, nos ajude contra este ditador insano, que quer destruir o nosso ganha pão, com esse projeto NOVA LUZ!”
“Somos mais de 30000 pessoas que diariamente enfrentamos todas as dificuldades possíveis, para vencer na vida.Temos histórias dos nossos antecessores familiares que estão há mais ou menos 100 (cem)anos lutando na SANTA IFIGÊNIA, com todos os desaforos das autoridades.Somos uma das regiões que mais pagam impostos , maiores varejistas da América Latina, ou seja um dos maiores pólos comerciais do país.Será que a alucinação ESQUIZOFRÊNICA de um ditador (KASSAB),para vencer as eleições tem respaldo?”
“Estão tentando iludir os paulistanos, com a garantia de que a cracolândia vai desaparecer, quando na verdade este é um problema mundial sem solução.As vantagens financeiras para bancar a campanha eleitoral de um Psiquicopata para governador (Trampolim eleitoral para o KASSAB),está diretamente ligado na destruição de várias famílias.Chega de palhaçada prefeitinho,serei um cabo eleitoral dos mais fervorozos contra sua alucinação governamental, e estarei mandando email para o mundo inteiro.”
“Estamos há mêses solicitando uma reunião com o secretário Bucalem, e o que mais chama atenção,é o descaso deste simples cidadão.Quando será que vai haver punição para os políticos que querem simplesmente destruir os que realmente trabalham, para dar espaço aos que vivem de especulação imobiliária.Vou lutar até Brasília se necessário, para que o nosso país veja quem são os políticos de São Paulo. Desabafo de um filho da SANTA IFIGÊNIA.”
"A coisa tá feia. Mas o pessoal não vai ser derrotado. Aqui todo mundo quer ir pra luta contra uma prefeitura que está contra o povo paulistano."
O fato é que o gibi não saiu e o projeto do Kassab não vingou. Haddad foi eleito prefeito em 2013 e vetou o projeto "Nova Luz", acabando com o sonho de uma elite paulistana de enriquecer um pouco mais.